Tempo de atendimento: Por que a velocidade da consulta médica prejudica o idoso?

Yuri Silva Portela
Diego Rodríguez Velázquez
5 Min de leitura

O doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, destaca uma variável que raramente aparece nos protocolos de qualidade assistencial, mas que tem impacto direto sobre a precisão diagnóstica, a adesão ao tratamento e a experiência do paciente: o tempo. No cuidado ao idoso, a pressa médica não é apenas desconfortável, mas clinicamente perigosa. Ele trata o tempo dedicado ao paciente idoso como um recurso terapêutico que não pode ser comprimido sem custo para a qualidade do cuidado.

Confira neste artigo por que tempo e humanização são indissociáveis na medicina geriátrica. Leia com atenção.

Por que a consulta apressada é especialmente prejudicial ao idoso?

O idoso tem especificidades comunicacionais que exigem ritmo diferente. Posto que ele processa informações com velocidade menor do que adultos jovens, precisa de mais pausas para formular perguntas e frequentemente organiza seus relatos de forma não linear, com contexto histórico que parece tangencial, mas que é clinicamente relevante. Uma consulta de dez minutos não é suficiente para extrair, processar e responder adequadamente a esse tipo de comunicação.

O doutor Yuri Silva Portela destaca que, quando o médico interrompe o idoso antes que ele termine de relatar seus sintomas, o que se perde não é apenas tempo. Perde-se a informação que estava sendo construída naquele momento e que não volta porque o paciente percebe que não há espaço para ela. A informação perdida pode ser exatamente a que torna o diagnóstico preciso.

Nas comunidades do sertão de Quixadá atendidas pelo Humaniza Sertão, muitos idosos chegam às ações do projeto com anos de queixas acumuladas que nunca foram completamente ouvidas. Desse modo, dar tempo a essas pessoas é a condição básica para que o atendimento funcione de forma clínica e humanamente adequada.

O que acontece quando o idoso sente que tem tempo para falar?

A resposta é documentada e consistente: ele conta mais, conta melhor e com muito mais precisão clínica. Dado que sintomas que omitia por vergonha emergem e dúvidas sobre medicamentos que engolia em silêncio são finalmente expressas. A relação terapêutica que se constrói nesse espaço de escuta real tem impacto sobre a adesão ao tratamento que nenhuma tecnologia de gestão de saúde consegue replicar.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Na visão do doutor Yuri Silva Portela, o tempo investido numa boa consulta geriátrica se traduz em menos retornos desnecessários, menos hospitalizações evitáveis e menos erros medicamentosos. Do ponto de vista da eficiência do sistema de saúde, o tempo dedicado ao idoso não é um custo. É um investimento com retorno expressivo.

Como o Humaniza Sertão incorpora o tempo como parte do cuidado?

O modelo operacional do Humaniza Sertão, com mais de vinte profissionais dividindo os atendimentos num único dia mensal, permite que cada especialidade dedique tempo real ao seu escopo sem a pressão da fila que caracteriza os serviços públicos convencionais. Essa estrutura não é um luxo. É uma escolha deliberada que reconhece o tempo como variável clínica inegociável.

Conforme destaca o fundador do projeto social Humaniza Sertão, o doutor Yuri Silva Portela, o dia de ação do projeto funciona também como um experimento social sobre o que acontece quando o cuidado não tem pressa. Visto que os idosos atendidos saem diferentes de como chegam, não apenas por causa das intervenções realizadas, mas porque foram tratados como pessoas com histórias que merecem ser ouvidas.

Tempo é cuidado, não é custo

O doutor Yuri Silva Portela acredita que a crise de humanização na saúde tem muito a ver com a compressão do tempo de consulta. Exija cuidado que respeite o ritmo do idoso. E, se você é familiar ou cuidador, reserve tempo para as conversas sobre saúde. A pressa é o adversário silencioso do cuidado que funciona.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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