Discussões sobre rastreamento populacional de câncer costumam girar em torno de vidas salvas, mortalidade reduzida e diagnóstico precoce, mas raramente entram em um território igualmente relevante para quem gerencia recursos públicos: quanto custa rastrear uma população inteira e quanto esse investimento efetivamente economiza mais adiante. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues acredita que essa conversa sobre economia da prevenção precisa ganhar mais espaço no debate público brasileiro, já que decisões de saúde acabam sempre esbarrando, de um jeito ou de outro, na disponibilidade de orçamento.
A lógica por trás desse cálculo é relativamente simples de entender, ainda que raramente explicada com clareza: tratar um câncer de mama descoberto em estágio inicial custa, de forma consistente, muito menos do que tratar o mesmo tumor já em estágio avançado, quando exige cirurgias mais complexas, quimioterapia prolongada e acompanhamento hospitalar mais intenso. Entender como esse cálculo funciona e por que ele deveria pesar mais nas decisões de política pública ajuda a explicar por que investir em rastreamento raramente é apenas um gasto, e sim uma escolha estratégica de longo prazo.
Como se calcula, na prática, o custo-benefício de um programa de rastreamento?
Estudos de economia da saúde costumam medir esse tipo de programa por meio do custo necessário para gerar um ano adicional de vida com boa qualidade, métrica conhecida internacionalmente como custo por ano de vida ajustado pela qualidade. Quando esse número fica abaixo de determinado limite, considerado aceitável pelas autoridades de saúde de cada país, o programa é considerado custo-efetivo, ou seja, o investimento necessário se justifica plenamente diante do benefício populacional gerado ao longo do tempo.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, a mamografia populacional figura historicamente entre os exames com melhor relação custo-benefício de toda a medicina preventiva, resultado direto de décadas de estudos que comprovaram sua capacidade de reduzir mortalidade sem exigir tecnologia excessivamente cara ou de acesso restrito. Para ele, esse dado deveria ser usado com mais frequência para defender ampliação de investimento, e não apenas para justificar cortes quando o orçamento público fica apertado.
Por que tratar um câncer em estágio custa tanto mais do que tratar cedo?
Um tumor pequeno e ainda localizado costuma pedir uma cirurgia mais conservadora, internação curta e, em boa parte dos casos, dispensa terapias sistêmicas mais longas e agressivas. O cenário é inverso quando o diagnóstico chega tarde: cirurgias mais extensas, ciclos completos de quimioterapia, radioterapia e, não raro, terapias-alvo de alto custo passam a incluir um tratamento que também exige acompanhamento multidisciplinar por muito mais tempo.

Para o Dr. Vinicius Rodrigues, essa diferença de custo não deveria ficar restrita às planilhas de gestão hospitalar, mas somar-se ao argumento clínico já consolidado sobre os benefícios do diagnóstico precoce, já que os dois caminhos apontam exatamente para a mesma direção. Cortar a oferta de rastreamento em nome de economia imediata, segundo ele, costuma produzir justamente o efeito inverso: o gasto simplesmente migra para uma etapa posterior do tratamento, quase sempre mais cara do que teria sido a prevenção capaz de evitar aqueles desfechos.
Como essa lógica se aplica especificamente à realidade brasileira?
No Brasil, onde recursos de saúde pública já são disputados por inúmeras prioridades concorrentes, argumentar exclusivamente com base em número de vidas salvas às vezes não é suficiente para garantir orçamento contínuo, ainda que deveria ser. Apresentar também o argumento econômico, mostrando que ampliar cobertura de rastreamento reduz gasto futuro com tratamentos de estágio avançado, tende a fortalecer a defesa de investimento perante gestores públicos habituados a decidir com base em restrições orçamentárias reais.
Para o Dr. Vinicius Rodrigues, essa combinação entre argumento clínico e argumento econômico deveria estar sempre presente em qualquer defesa de ampliação de rastreamento populacional, já que gestores de saúde pública frequentemente precisam justificar decisões de investimento perante áreas econômicas do governo, que nem sempre priorizam automaticamente a lógica puramente clínica por trás dessas escolhas.
O que essa reflexão econômica muda na forma de defender políticas de prevenção?
Reconhecer o valor econômico do rastreamento não substitui o valor humano de cada vida salva, mas amplia o repertório de argumentos disponíveis para defender investimento contínuo em programas de prevenção, especialmente em períodos de restrição orçamentária, quando decisões de corte costumam mirar justamente ações preventivas por parecerem menos urgentes do que o tratamento de quem já está doente.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que essa é, talvez, uma das maiores ironias da gestão em saúde pública: cortar rastreamento parece economia imediata, mas, na prática, costuma gerar gasto maior lá na frente, quando os casos que deixaram de ser encontrados cedo chegam ao sistema em estágio avançado, exigindo tratamento muito mais caro e complexo do que teria sido necessário.
Enxergar prevenção como investimento, e não apenas como despesa, muda a forma como qualquer sociedade decide alocar seus recursos limitados de saúde. Essa mudança de perspectiva, mais do que qualquer nova tecnologia, pode ser justamente o que falta para proteger programas de rastreamento contra cortes movidos por pressão orçamentária de curto prazo.