Gustavo Morceli evidencia que, em meio à rápida disseminação de ferramentas digitais, a inteligência artificial passou a ocupar espaço crescente nas discussões sobre educação. Plataformas adaptativas, correção automatizada e sistemas de apoio ao planejamento docente são apresentados como soluções capazes de transformar a sala de aula. No entanto, quando essas promessas chegam à prática escolar, nem sempre o impacto acompanha o discurso.
Na rotina de professores e gestores, a pergunta central deixou de ser se a inteligência artificial deve ou não ser utilizada. O debate passou a girar em torno de como, em quais contextos e com quais limites essa tecnologia pode contribuir de forma concreta para o processo de ensino e aprendizagem.
Entre o entusiasmo tecnológico e a realidade pedagógica
Grande parte das escolas tem contato inicial com a inteligência artificial por meio de soluções prontas, frequentemente associadas a ganhos de eficiência. Correção de atividades, geração de relatórios e personalização automática do ritmo de estudo aparecem como vantagens imediatas. Ainda assim, quando essas ferramentas não dialogam com a proposta pedagógica da instituição, tendem a se tornar apenas mais uma camada tecnológica sobre práticas já existentes.
Esse descompasso cria frustração. Professores percebem aumento de demandas operacionais, enquanto alunos nem sempre identificam mudanças significativas na forma de aprender. A tecnologia, nesse cenário, funciona como apoio administrativo, mas não altera de maneira relevante a experiência pedagógica. Ao analisar esse movimento, Gustavo Morceli observa que a inteligência artificial costuma ser superestimada quando tratada como solução autônoma.
Onde a inteligência artificial já faz diferença concreta
Apesar das limitações, há áreas em que a inteligência artificial vem demonstrando ganhos consistentes no cotidiano escolar. Uma delas está relacionada ao planejamento docente. Ferramentas capazes de organizar conteúdos, sugerir sequências didáticas e analisar dados de desempenho permitem ao professor tomar decisões mais informadas sobre sua prática.

Outro campo relevante envolve o acompanhamento individualizado dos estudantes. Sistemas que identificam padrões de dificuldade ajudam a antecipar intervenções e a ajustar estratégias de ensino. Quando utilizados como suporte, e não como substituição da atuação docente, esses recursos ampliam a capacidade de resposta da escola às necessidades da turma. Na leitura de Gustavo Morceli, o valor da inteligência artificial aparece com mais clareza quando ela atua como instrumento de apoio à tomada de decisão pedagógica.
Limites, riscos e decisões que não podem ser terceirizadas
O avanço da inteligência artificial na educação também traz desafios relevantes. Questões relacionadas à privacidade de dados, à transparência dos algoritmos e à reprodução de vieses exigem atenção constante. A adoção sem critérios pode gerar dependência tecnológica e reduzir a autonomia pedagógica da escola. Além disso, nem todos os aspectos do ensino podem ser automatizados.
Processos como mediação de conflitos, construção de sentido e desenvolvimento socioemocional permanecem profundamente ligados à interação humana. Quando a tecnologia é utilizada para substituir essas dimensões, o risco é empobrecer a experiência educativa. Gustavo Morceli pontua que, em meio ao debate sobre educação tecnológica, a governança do uso de inteligência artificial é um elemento central.
Um debate ainda em construção
A inteligência artificial já faz parte do cotidiano escolar, ainda que de forma desigual e experimental. O desafio atual não está em acelerar sua adoção, mas em amadurecer o debate sobre seus usos pedagógicos. Escolas que tratam a tecnologia como meio, e não como fim, tendem a obter resultados mais consistentes. Gustavo Morceli conclui que, mais do que transformar a sala de aula de maneira imediata, a inteligência artificial redefine processos, amplia possibilidades de análise e exige novas competências profissionais.
Autor: Halika Mercuto