Banhos gelados e exposição deliberada ao frio se tornaram tendência entre praticantes de biohacking, muitas vezes prometendo acelerar o metabolismo e queimar gordura de forma quase mágica. Lucas Peralles, como nutricionista esportivo e fundador do Método LP, expressa que existe, de fato, uma base científica real por trás dessa prática, ligada a um tipo especial de tecido chamado gordura marrom, mas que os efeitos práticos costumam ser mais modestos do que o marketing ao redor do tema costuma sugerir.
Diferente da gordura branca comum, que armazena energia, a gordura marrom é especializada em gerar calor por meio de um processo chamado termogênese, queimando energia diretamente para aquecer o corpo em ambientes frios. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine já demonstrou, há alguns anos, que adultos saudáveis realmente possuem depósitos ativos de gordura marrom, encontrados principalmente nas regiões cervical, supraclavicular e ao redor de órgãos internos, contrariando a ideia antiga de que esse tecido existiria apenas em bebês e animais hibernantes.
Como exatamente a exposição ao frio ativa esse tecido especial?
A gordura marrom é rica em mitocôndrias, contendo uma proteína chamada UCP1, responsável por permitir que a energia armazenada nas células seja dissipada diretamente como calor, em vez de ser convertida em ATP, a moeda energética tradicional do corpo. Quando exposto ao frio, o organismo ativa esse mecanismo através do sistema nervoso simpático, aumentando a atividade da gordura marrom para manter a temperatura corporal estável sem recorrer a tremores musculares perceptíveis.
Lucas Peralles chama atenção para o fato de que pesquisas recentes identificaram uma via metabólica adicional envolvendo o fígado, que libera uma substância chamada niacinamida durante a exposição ao frio, utilizada pela gordura marrom para produzir energia celular necessária ao processo de termogênese. Esse tipo de descoberta detalhada mostra como a ciência vem mapeando, com precisão crescente, cada etapa bioquímica envolvida nesse processo, antes tratado apenas como curiosidade fisiológica.
A ativação da gordura marrom realmente melhora o controle de glicose e gordura no sangue?
Uma meta-análise reunindo estudos controlados com participantes saudáveis encontrou que a exposição ao frio, capaz de ativar a gordura marrom, influencia principalmente os níveis de ácidos graxos livres circulantes no sangue, sugerindo que essas moléculas servem como combustível primário para o processo de termogênese. Tal como evidencia Lucas Peralles, os efeitos sobre glicose e insulina, porém, mostraram-se mais heterogêneos entre os estudos, indicando que o impacto metabólico completo dessa ativação ainda não está totalmente esclarecido.

Esse tipo de resultado misto reforça a necessidade de cautela antes de tratar exposição ao frio como estratégia isolada e infalível de emagrecimento, já que boa parte dos estudos avalia efeitos agudos e pontuais, não necessariamente traduzidos em perda de gordura significativa ao longo de meses. Na avaliação do fundador do Método LP, a exposição ao frio provavelmente funciona melhor como complemento a uma estratégia nutricional e de treino já bem estruturada, e não como substituto para essas bases fundamentais.
Pessoas que vivem em climas frios desenvolvem naturalmente mais gordura marrom?
Uma revisão sistemática investigando populações do Ártico, habitualmente expostas a frio intenso, buscou confirmar se a exposição crônica realmente aumentaria a quantidade ou atividade dessa gordura especial ao longo da vida. Os resultados sugerem adaptação real ao frio nessas populações, reforçando que o corpo humano possui plasticidade para ajustar sua resposta térmica conforme o ambiente em que vive repetidamente ao longo do tempo.
Esse achado é relevante, visto que mostra que a gordura marrom não é uma característica fixa e imutável, mas um tecido capaz de se adaptar gradualmente à exposição repetida ao frio, de forma parecida com a adaptação muscular ao treino de força. Isso sugere, como retrata Lucas Peralles, que exposições regulares e bem toleradas ao frio, e não apenas episódios isolados e esporádicos, seriam necessárias para gerar adaptações metabólicas mais consistentes ao longo do tempo.
Vale a pena incorporar exposição ao frio como estratégia metabólica?
Reconhecer o potencial real, porém modesto, da ativação da gordura marrom ajuda a posicionar essa prática de forma realista dentro de uma estratégia mais ampla de saúde metabólica. Para quem já pratica exercício regular e mantém alimentação equilibrada, a exposição ao frio pode representar um estímulo adicional interessante, mas dificilmente substituirá os pilares fundamentais de qualquer processo sério de recomposição corporal.
Lucas Peralles alude que esse é um exemplo de como práticas populares de biohacking frequentemente carregam alguma base científica real, mas costumam ser apresentadas de forma exagerada em relação ao que a evidência efetivamente sustenta. Por fim, entender essa diferença entre potencial biológico genuíno e promessa de marketing inflada é, segundo ele, essencial para qualquer pessoa que deseje aplicar ciência real, e não apenas tendências passageiras, à própria rotina de saúde metabólica.